{"id":1393,"date":"2022-06-18T19:48:47","date_gmt":"2022-06-18T22:48:47","guid":{"rendered":"https:\/\/marceloguerra.com.br\/as-visoes-de-mundo\/"},"modified":"2022-06-18T19:48:47","modified_gmt":"2022-06-18T22:48:47","slug":"as-visoes-de-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/site.marceloguerra.com.br\/index.php\/2022\/06\/18\/as-visoes-de-mundo\/","title":{"rendered":"As vis\u00f5es de mundo"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\nhttps:\/\/youtu.be\/sOw_qzHKD3A\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Machado de Assis<\/p>\n\n\n\n<p>ID\u00c9IAS DO CAN\u00c1RIO<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem dado a estudos de ornitologia, por nome Macedo, referiu a alguns amigos um caso t\u00e3o extraordin\u00e1rio que ningu\u00e9m lhe deu cr\u00e9dito. Alguns chegam a supor que Macedo virou o ju\u00edzo. Eis aqui o resumo da narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No princ\u00edpio do m\u00eas passado, &#8211; disse ele, &#8211; indo por uma rua, sucedeu que um t\u00edlburi \u00e0 disparada, quase me atirou ao ch\u00e3o. Escapei saltando para dentro de urna loja de belchior. Nem o estr\u00e9pito do cavalo e do ve\u00edculo, nem a minha entrada fez levantar o dono do neg\u00f3cio, que cochilava ao fundo, sentado numa cadeira de abrir. Era um frangalho de homem, barba cor de palha suja, a cabe\u00e7a enfiada em um gorro esfarrapado, que provavelmente n\u00e3o achara comprador. N\u00e3o se adivinhava nele nenhuma hist\u00f3ria, como podiam ter alguns dos objetos que vendia, nem se lhe sentia a tristeza austera e desenganada das vidas que foram vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>A loja era escura, atulhada das coisas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas que de ordin\u00e1rio se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem pr\u00f3pria do neg\u00f3cio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panelas sem tampa, tampas sem panela, bot\u00f5es, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chap\u00e9us de palha e de p\u00ealo, caixilhos, bin\u00f3culos, meias casacas, um florete, um c\u00e3o empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dois cabides, um bodoque, um term\u00f4metro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson, um gam\u00e3o, duas m\u00e1scaras de arame para o carnaval que h\u00e1 de vir, tudo isso e o mais que n\u00e3o vi ou n\u00e3o me ficou de mem\u00f3ria, enchia a loja nas imedia\u00e7\u00f5es da porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. L\u00e1 para dentro, havia outras cousas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objetos grandes, c\u00f4modas, cadeiras, camas, uns por cima dos outros, perdidos na escurid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ia a sair, quando vi uma gaiola pendurada da porta. T\u00e3o velha como o resto, para ter o mesmo aspecto da desola\u00e7\u00e3o geral, faltava-lhe estar vazia. N\u00e3o estava vazia. Dentro pulava um can\u00e1rio. A cor, a anima\u00e7\u00e3o e a gra\u00e7a do passarinho davam \u00e0quele amontoado de destro\u00e7os uma nota de vida e de mocidade. Era o \u00faltimo passageiro de algum naufr\u00e1gio, que ali foi parar \u00edntegro e alegre como dantes. Logo que olhei para ele, entrou a saltar mais abaixo e acima, de poleiro em poleiro, como se quisesse dizer que no meio daquele cemit\u00e9rio brincava um raio de sol. N\u00e3o atribuo essa imagem ao can\u00e1rio, sen\u00e3o porque falo a gente ret\u00f3rica; em verdade, ele n\u00e3o pensou em cemit\u00e9rio nem sol, segundo me disse depois. Eu, de envolta com o prazer que me trouxe aquela vista, senti-me indignado do destino do p\u00e1ssaro, e murmurei baixinho palavras de azedume.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Quem seria o dono execr\u00e1vel deste bichinho, que teve \u00e2nimo de se desfazer dele por alguns pares de n\u00edqueis? Ou que m\u00e3o indiferente, n\u00e3o querendo guardar esse companheiro de dono defunto, o deu de gra\u00e7a a algum pequeno, que o vendeu para ir jogar uma quiniela?<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>E o can\u00e1rio, quedando-se em cima do poleiro, trilou isto:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Quem quer que sejas tu, certamente n\u00e3o est\u00e1s em teu ju\u00edzo. N\u00e3o tive dono execr\u00e1vel, nem fui dado a nenhum menino que me vendesse. S\u00e3o imagina\u00e7\u00f5es de pessoa doente; vai-te curar, amigo\u2026<\/li><li>Como &#8211; interrompi eu, sem ter tempo de ficar espantado. Ent\u00e3o o teu dono n\u00e3o te vendeu a esta casa? N\u00e3o foi a mis\u00e9ria ou a ociosidade que te trouxe a este cemit\u00e9rio, como um raio de sol?<\/li><li>N\u00e3o sei que seja sol nem cemit\u00e9rio. Se os can\u00e1rios que tens visto usam do primeiro desses nomes, tanto melhor, porque \u00e9 bonito, mas estou que confundes.<\/li><li>Perd\u00e3o, mas tu n\u00e3o vieste para aqui \u00e0 toa, sem ningu\u00e9m, salvo se o teu dono foi sempre aquele homem que ali est\u00e1 sentado.<\/li><li>Que dono? Esse homem que a\u00ed est\u00e1 \u00e9 meu criado, d\u00e1-me \u00e1gua e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os servi\u00e7os, n\u00e3o seria com pouco; mas os can\u00e1rios n\u00e3o pagam criados. Em verdade, se o mundo \u00e9 propriedade dos can\u00e1rios, seria extravagante que eles pagassem o que est\u00e1 no mundo.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Pasmado das respostas, n\u00e3o sabia que mais admirar, se a linguagem, se as ideias. A linguagem, posto me entrasse pelo ouvido como de gente, sa\u00eda do bicho em trilos engra\u00e7ados. Olhei em volta de mim, para verificar se estava acordado; a rua era a mesma, a loja era a mesma loja escura, triste e \u00famida. O can\u00e1rio, movendo a um lado e outro, esperava que eu lhe falasse. Perguntei-lhe ent\u00e3o se tinha saudades do espa\u00e7o azul e infinito\u2026<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Mas, caro homem, trilou o can\u00e1rio, que quer dizer espa\u00e7o azul e infinito?<\/li><li>Mas, perd\u00e3o, que pensas deste mundo? Que coisa \u00e9 o mundo?<\/li><li>O mundo, redarguiu o can\u00e1rio com certo ar de professor, o mundo \u00e9 uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o can\u00e1rio \u00e9 senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora da\u00ed, tudo \u00e9 ilus\u00e3o e mentira.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Nisto acordou o velho, e veio a mim arrastando os p\u00e9s. Perguntou-me se queria comprar o can\u00e1rio. Indaguei se o adquirira, como o resto dos objetos que vendia, e soube que sim, que o comprara a um barbeiro, acompanhado de uma cole\u00e7\u00e3o de navalhas.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>As navalhas est\u00e3o em muito bom uso, concluiu ele.<\/li><li>Quero s\u00f3 o can\u00e1rio.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Paguei-lhe o pre\u00e7o, mandei comprar uma gaiola vasta, circular, de madeira e arame, pintada de branco, e ordenei que a pusessem na varanda da minha casa, donde o passarinho podia ver o jardim, o repuxo e um pouco do c\u00e9u azul.<\/p>\n\n\n\n<p>Era meu intuito fazer um longo estudo do fen\u00f4meno, sem dizer nada a ningu\u00e9m, at\u00e9 poder assombrar o s\u00e9culo com a minha extraordin\u00e1ria descoberta. Comecei por alfabeto a l\u00edngua do can\u00e1rio, por estudar-lhe a estrutura, as rela\u00e7\u00f5es com a m\u00fasica, os sentimentos est\u00e9ticos do bicho, as suas ideias e reminisc\u00eancias. Feita essa an\u00e1lise filol\u00f3gica e psicol\u00f3gica, entrei propriamente na hist\u00f3ria dos can\u00e1rios, na origem deles, primeiros s\u00e9culos, geologia e flora das ilhas Can\u00e1rias, se ele tinha conhecimento da navega\u00e7\u00e3o, etc. Convers\u00e1vamos longas horas, eu escrevendo as notas, ele esperando, saltando, trilando.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tendo mais fam\u00edlia que dois criados, ordenava-lhes que n\u00e3o me interrompessem, ainda por motivo de alguma carta ou telegrama urgente, ou visita de import\u00e2ncia. Sabendo ambos das minhas ocupa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, acharam natural a ordem, e n\u00e3o suspeitaram que o can\u00e1rio e eu nos entend\u00edamos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 mister dizer que dormia pouco, acordava duas e tr\u00eas vezes por noite, passeava \u00e0 toa, sentia-me com febre. Afinal tornava ao trabalho, para reler, acrescentar, emendar. Retifiquei mais de uma observa\u00e7\u00e3o, &#8211; ou por hav\u00ea-la entendido mal, ou porque ele n\u00e3o a tivesse expresso claramente. A defini\u00e7\u00e3o do mundo foi uma delas. Tr\u00eas semanas depois da entrada do can\u00e1rio em minha casa, pedi-lhe que me repetisse a defini\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>O mundo, respondeu ele, \u00e9 um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o can\u00e1rio, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais \u00e9 ilus\u00e3o e mentira.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m a linguagem sofreu algumas retifica\u00e7\u00f5es, e certas conclus\u00f5es, que me tinham parecido simples, vi que eram temer\u00e1rias. N\u00e3o podia ainda escrever a mem\u00f3ria que havia de mandar ao Museu Nacional, ao Instituto Hist\u00f3rico e \u00e0s universidades alem\u00e3s, n\u00e3o porque faltasse mat\u00e9ria, mas para acumular primeiro todas as observa\u00e7\u00f5es e ratific\u00e1-las. Nos \u00faltimos dias, n\u00e3o sa\u00eda de casa, n\u00e3o respondia a cartas, n\u00e3o quis saber de amigos nem parentes. Todo eu era can\u00e1rio. De manh\u00e3, um dos criados tinha a seu cargo limpar a gaiola e por-lhe \u00e1gua e comida. O passarinho n\u00e3o lhe dizia nada, como se soubesse que a esse homem faltava qualquer preparo cient\u00edfico. Tamb\u00e9m o servi\u00e7o era o mais sum\u00e1rio do mundo; o criado n\u00e3o era amador de p\u00e1ssaros.<\/p>\n\n\n\n<p>Um s\u00e1bado amanheci enfermo, a cabe\u00e7a e a espinha do\u00edam-me. O m\u00e9dico ordenou absoluto repouso; era excesso de estudo, n\u00e3o devia ler nem pensar, n\u00e3o devia saber sequer o que se passava na cidade e no mundo. Assim fiquei cinco dias; no sexto levantei-me, e s\u00f3 ent\u00e3o soube que o can\u00e1rio, estando o criado a tratar dele, fugira da gaiola. O meu primeiro gesto foi para esganar o criado; a indigna\u00e7\u00e3o sufocou-me, ca\u00ed na cadeira, sem voz, tonto. O culpado defendeu-se, jurou que tivera cuidado, o passarinho \u00e9 que fugira por astuto\u2026<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Mas n\u00e3o o procuraram?<\/li><li>Procuramos, sim, senhor; a princ\u00edpio trepou ao telhado, trepei tamb\u00e9m, ele fugiu, foi para uma \u00e1rvore, depois escondeu-se n\u00e3o sei onde. Tenho indagado desde ontem, perguntei aos vizinhos, aos chacareiros, ningu\u00e9m sabe nada.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Padeci muito; felizmente, a fadiga estava passada, e com algumas horas pude sair \u00e0 varanda e ao jardim. Nem sombra de can\u00e1rio. Indaguei, corri, anunciei, e nada. Tinha j\u00e1 recolhido as notas para compor a mem\u00f3ria, ainda que truncada e incompleta, quando me sucedeu visitar um amigo, que ocupa uma das mais belas e grandes ch\u00e1caras dos arrabaldes. Passe\u00e1vamos nela antes de jantar, quando ouvi trilar esta pergunta:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Viva, Sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu?<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Era o can\u00e1rio; estava no galho de uma \u00e1rvore. Imaginem como fiquei, e o que lhe disse. O meu amigo cuidou que eu estivesse doido; mas que me importavam cuidados de amigos? Falei ao can\u00e1rio com ternura, pedi-lhe que viesse continuar a conversa\u00e7\u00e3o, naquele nosso mundo composto de um jardim e repuxo, varanda e gaiola branca e circular\u2026<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Que jardim? que repuxo?<\/li><li>O mundo, meu querido.<\/li><li>Que mundo? Tu n\u00e3o perdes os maus costumes de professor.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>O mundo, concluiu solenemente, \u00e9 um espa\u00e7o infinito e azul, com o sol por cima.<\/p>\n\n\n\n<p>Indignado, retorqui-lhe que, se eu lhe desse cr\u00e9dito, o mundo era tudo; at\u00e9 j\u00e1 fora uma loja de belchior\u2026<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>De belchior? trilou ele \u00e0s bandeiras despregadas. Mas h\u00e1 mesmo lojas de belchior?<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 diferentes vis\u00f5es de mundo, e o m\u00e9dico ou psicoterapeuta precisa conhecer e respeitar a do seu paciente. <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[41,42,43,48,49,56],"class_list":["post-1393","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-terapia-biografica","tag-jung","tag-literatura","tag-machadodeassis","tag-psicologiaanalitica","tag-psicologiacomplexa","tag-terapiabiografica"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/site.marceloguerra.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1393","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/site.marceloguerra.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/site.marceloguerra.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.marceloguerra.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.marceloguerra.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1393"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/site.marceloguerra.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1393\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/site.marceloguerra.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1393"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.marceloguerra.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1393"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.marceloguerra.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1393"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}